Edifício FAM - Porto Alegre, 1969
Sobre arquitetura e papel do arquiteto na sociedade, imaginação, criação, etc. Fruto da simples e usual necessidade de sublinhar textos que, formalmente não poderiam ser sublinhados, mas exigiam, que fossem transcritos em algum lugar e compartilhados, juntamente com alguns outros que apenas mostraram a necessidade de serem divididos.
terça-feira, 29 de junho de 2010
Sobre a imaginação
Soberania
Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui
pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso
carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos
deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado
e disse que eu tivera um vareio da imaginação.
Mas que esses vareios acabariam com os estudos.
E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li
alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.
E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria
das idéias e da razão pura. Especulei filósofos
e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande
saber. Achei que os eruditos nas suas altas
abstrações se esqueciam das coisas simples da
terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo
— o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante do que o saber.
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei
um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu
olho começou a ver de novo as pobres coisas do
chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E
meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam
o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no
corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas
podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. E vi que o homem não tem soberania
nem pra ser um bentevi.
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui
pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso
carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos
deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado
e disse que eu tivera um vareio da imaginação.
Mas que esses vareios acabariam com os estudos.
E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li
alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.
E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria
das idéias e da razão pura. Especulei filósofos
e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande
saber. Achei que os eruditos nas suas altas
abstrações se esqueciam das coisas simples da
terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo
— o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante do que o saber.
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei
um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu
olho começou a ver de novo as pobres coisas do
chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E
meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam
o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no
corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas
podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. E vi que o homem não tem soberania
nem pra ser um bentevi.
Manoel de Barros - "Memórias Inventadas - A Terceira Infância"
Sobre a função do arquiteto
"A função do arquiteto é criar espaços para a sociedade. A criação requer domínio do processo de produção em seus meios e fins. Requer repertório cultural abrangente, por lidar com anseios da sociedade, e materialização dos seus objetivos. O espaço físico há de ter estabilidade, funções determinadas e propiciar bem-estar ao homem na sua privacidade ou em sociedade.
Arquitetura é arte e ciência, portanto está em constante contemporaneidade. Mas é difícil a assimilação cultural, pela sociedade, dos reais valores do espaço, urbano ou livre, ecologicamente sustentável. Essa dificuldade se agrava com as diferenças econômicas das classes sociais que usufruem incorretamente o poder sobre os bens comuns, subestimando o futuro."
Nadir Mezerani
Sobre criação qualquer
"Devemos carregar na cabeça fogos de artifício que estourem, e para a nossa felicidade afugentem a dose de morrinha diária que nos oferecem."
Sobre projetar
No fragmento a seguir, alterei a primeira palavra que originalmente no texto era "pensar" por "projetar". Acho que se encaixa como uma boa definição.
"Projetar não é se alinhar com o que já se conhece. É justamente o contrário disso. Movido por uma espécie de força forasteira, que não se interessa em refletir sobre a vida, mas agregar-lhe algo mais, projeta-se o impensável. Isso exige em nós piruetas mortais e quase nunca podemos contar com uma cama elástica que ampare as quedas. Despenca-se, fraturam-se os ossos. Não é nada fácil desmontar um campo pronto de referências afixado na alma."
Rosane Preciosa - Rumores Discretos da Subjetividade
"Projetar não é se alinhar com o que já se conhece. É justamente o contrário disso. Movido por uma espécie de força forasteira, que não se interessa em refletir sobre a vida, mas agregar-lhe algo mais, projeta-se o impensável. Isso exige em nós piruetas mortais e quase nunca podemos contar com uma cama elástica que ampare as quedas. Despenca-se, fraturam-se os ossos. Não é nada fácil desmontar um campo pronto de referências afixado na alma."
Rosane Preciosa - Rumores Discretos da Subjetividade
Sobre pensamentos
"Pensamentos traçam um caminho de vento. São buliçosos como as crianças que estão sempre inventando um jeito de se desligar do controle familiar, armando entre elas uma secreta fuga.
Ninguém é proprietário de um pensamento. Eles nos adotam, sopram forte em nós, nos assediam no banho, no bar, numa caminhada matinal. É exatamente nessas horas, em que não dispomos de meios para anotá-los, que eles levantam o vôo mais alto, nos intimam a seguir suas doidas pistas e vão nos forçando a recriar nossos passos, a desejar outras topografias na nossa existência."
Rosane Preciosa - Rumores Discretos da Subjetividade
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